Urgência climática estimula uso energético dos aterros sanitários

Brasil tem condições de gerar 115 mil Gwh de energia por ano com o aproveitamento dos rejeitos urbanos 11/11/2016 - Valor Online - Sergio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo
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O cumprimento da legislação que obriga o fim dos lixões entre 2018 e 2021 tende a aumentar as emissões de carbono pelos resíduos urbanos no Brasil, ampliando a necessidade de soluções para controle no cenário regulatório das mudanças climáticas, após a entrada em vigor do Acordo de Paris.  Isso se explica porque o lixo gera mais gases por meio de sua decomposição quando disposto em aterros sanitários, para onde devem ir os materiais não recicláveis, conforme a Lei 12.305/2010.

 

Mas o que parece prejudicial ao clima pode representar uma frente de oportunidades: nessas áreas, ao contrário dos vazadouros a céu aberto que concentram riscos à saúde e ao meio ambiente, os poluentes gasosos produzidos em maior volume, como o metano, podem ser capturados e aproveitados para a geração de energia limpa, sem agravar o efeito estufa.

 

De acordo com 3º Inventário Nacional de Emissões Antrópicas, nos aterros sanitários o potencial de geração de metano supera em 60% o volume emitido nos lixões e em 20% o liberado nos "aterros controlados", mantidos sem métodos adequados contra a poluição.  Desta forma, o setor de resíduos urbanos correspondeu a 3,3% do carbono emitido pelo Brasil em 2015.

 

Do total, mais da metade (53,2%) se deve à disposição final do lixo, e o restante ao esgoto doméstico e industrial, além da incineração.  "O número cresceu 445% desde a década de 1990, mas agora tem se mantido estável devido à queda da economia e do consumo", informa Iris Coluna, integrante da equipe que produz os dados de resíduos do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estuda (SEEG), do Observatório do Clima.

 

A tendência é de aumento da curva, na perspectiva da retomada do crescimento econômico e do maior acúmulo de lixo de forma ambientalmente correta em aterros sanitários.  Hoje, 41,6% das 216 mil toneladas de resíduos produzidas diariamente no país ainda vão para lixões.  Segundo o IBGE, desse total, 51,4% corresponde à matéria orgânica que acaba despejada no solo, porque a compostagem para transformação em adubo é insipiente nas cidades.

 

"É preciso organizar o setor para o aproveitamento energético", ressalta Rodrigo Perpétuo, secretário executivo do Iclei, associação mundial de governos locais dedicados ao desenvolvimento sustentável.  Para ele, o cenário é favorável a investimentos, diante da recuperação dos ânimos no mercado de carbono, após o acordo climático global.  Como o metano é o mais potente contribuinte do efeito estufa, sua captura em aterros constava entre os principais projetos beneficiados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), criado no âmbito do extinto Protocolo de Kyoto - o que agora poderá ser reaquecido por meio de novos instrumentos financeiros estabelecidos pela ONU.

 

"A geração de eletricidade é um potencial de negócio bastante atrativo", analisa Carlos Silva, diretor executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).  Mapeamento concluído neste ano pela instituição junto aos 22 unidades que exploram gás do lixo indica que todos os aterros sanitários hoje existentes no país têm capacidade acumulada de emitir 892 milhões de toneladas de carbono em 30 anos, podendo gerar ao fim desse período 500 Mwh - suficiente para abastecer cerca de 3,2 milhões de pessoas.  Para isso, seria necessário investimento de R$ 1 bilhão.

 

"O desafio não é tecnológico, mas de custo, porque os equipamentos são todos importados", afirma Silva, ao lembrar que a falta de capacidade financeira dos municípios e a insegurança no retorno do investimento são barreiras adicionais.

 

O potencial se integra à tendência de diversificação da matriz energética e de geração distribuída.  De acordo com a Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABiogás), o Brasil tem condições de gerar 115 mil Gwh de energia por ano com o aproveitamento dos rejeitos urbanos e também da pecuária e da agroindústria, o que equivale a uma Itaipu e meia.  A capacidade nacional de biogás é estimada em 23 bilhões de m³/ano, sendo 3 bilhões a partir de resíduos urbanos.  No total, o Brasil poderá evitar o lançamento de 190 milhões de toneladas de carbono com uso do biogás como fonte de energia.  De acordo com a entidade, que articula junto ao governo a adoção de um plano nacional com políticas públicas para o desenvolvimento do setor, os aterros sanitários representam as oportunidades mais baratas do mercado para a valorização energética de biogás, inclusive como combustível de veículos, em substituição ao diesel.

 

Estima-se que o potencial de geração de energia de todo o lixo seria suficiente para abastecer em 30% a demanda de energia elétrica atual do Brasil.