Entre o público e o privado - Caminhos do alinhamento entre o investimento social privado e o negócio

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A importância do investimento social privado (ISP) para o Brasil está longe de ser contestada. Em um país como o nosso, marcado por demandas sociais insuficientemente atendidas, a mobilização de recursos privados para a consolidação dos marcos democráticos, o fortalecimento da sociedade civil e de agendas de direito, e como contribuição para a inovação de políticas públicas é de suma relevância. Nesse universo, o ISP empresarial – aquele praticado por empresas ou organizações a elas ligadas – é o mais difundido, seguido pelos tipos familiar, independente e comunitário.

Recentemente intensifica-se nesse campo o debate sobre o fenômeno de alinhamento entre ISP empresarial e o negócio, trazendo reflexões acerca da visão original do ISP desde a sua constituição no Brasil: a distinção clara entre as esferas do negócio e do investimento social, com a ação social empresarial orientada ao interesse público. Tais reflexões se devem à aparente complexidade atribuída pelo alinhamento à tênue linha que articula, mas ao mesmo tempo diferencia, a relação entre interesse público e investimento empresarial voluntário. Como resposta, diferentes narrativas sobre o fenômeno são construídas a partir dos lugares de fala e das práticas de quem as elaboram.

Mesmo assim, não há como ignorar potenciais modificações no ecossistema do ISP empresarial a partir do movimento do alinhamento. À medida que esse tema ganha proeminência no Brasil, aumenta o número de debates e atores envolvidos em investigações sobre as suas implicações.

Nesse contexto, o alinhamento passa a ser visto como uma das prováveis fontes de reacomodação das dinâmicas existentes entre investidores sociais empresariais, empresas mantenedoras, sociedade civil e beneficiários, e suas respectivas agendas, prioridades, papéis e fluxos de recursos.

Propomos nesta publicação uma investigação do fenômeno do alinhamento entre ISP empresarial e negócio a partir de duas perspectivas. A primeira perspectiva parte dos macros movimentos que orientam o papel e o espaço que as empresas passaram a ocupar principalmente a partir da segunda metade do século XX. Já a segunda aborda o processo de transformação do campo do ISP empresarial ao longo do tempo até o momento em que o alinhamento passa a se manifestar. A ideia é explorar a hipótese de que a aproximação entre ISP empresarial e o negócio seria fruto justamente do cruzamento dessas perspectivas. Além disso, investigamos, junto aos atores consultados durante as etapas deste estudo, as potenciais implicações do alinhamento para a sociedade.

Esta publicação é resultado de análises e reflexões sobre o fenômeno do alinhamento entre ISP empresarial e o negócio. Como insumo, foram realizados uma extensa pesquisa bibliográfica e um processo de escuta com mais de 40 pessoas atuantes em organizações da sociedade civil, na academia e em empresas e institutos e fundações empresariais.

Esperamos que as reflexões aqui colocadas contribuam para o conhecimento sobre o campo do ISP no Brasil, mas que não se restrinjam a ele, na medida em que propomos a sua articulação com o campo da responsabilidade social empresarial e as transformações do papel das empresas no cenário contemporâneo global. O conteúdo se insere no debate sobre as esferas pública e privada, as variadas formas de alinhamento e as estratégias de legitimação das mesmas perante a sociedade. O desafio é, portanto, complexo e requer complementações futuras. Mais do que respostas ou argumentos conclusivos, levantamos perguntas, hipóteses e provocações.

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