Educação reforça desigualdade entre negros e brancos

No Brasil, brancos frequentam escola por mais tempo, enquanto pretos e pardos têm acesso a escolas de pior qualidade. Para movimento Todos pela Educação, são necessárias políticas públicas específicas para os negros. 20/11/2016 - Agência Brasil - Mariana Tokarnia
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Educação reforça desigualdades entre brancos e negros, diz estudo

 

Brasília 

 

A educação para brancos e negros é desigual no Brasil, segundo dados educacionais organizados pelo movimento Todos pela Educação.  Os brancos concentram os melhores indicadores e é a população que mais vai à escola, conclui o estudo.  São também os que se saem melhor nas avaliações nacionais.  Para o movimento, a falta de oferta de uma educação de qualidade é o que aumenta essa desigualdade.  O estudo foi divulgado hoje (18), dois dias antes do Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro.

 

Os negros, soma daqueles que se declaram pretos e pardos, pelos critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são maioria da população brasileira, 52,9%.  Essa população, no entanto, ganha menos da média do país, que é R$ 1.012,25, segundo dados do IBGE de 2014.  Entre os negros, a média de renda familiar per capita é 753,69 entre os pretos e R$ 729,50, entre os pardos.  Os brancos têm renda média de R$ 1.334,30.

 

Os dados seguem apontando a desigualdade, o desemprego é maior entre os pretos (7,5%) e pardos (6,8%) que entre os brancos (5,1%).  O trabalho infantil, maior entre pardos (7,6%) e pretos (6,5%), que entre brancos (5,4%).

 

As desigualdades sociais são reforçadas na educação.  A taxa de analfabetismo é 11,2% entre os pretos; 11,1% entre os pardos; e, 5% entre os brancos.  Até os 14 anos, as taxas de frequência escolar têm pequenas variações entre as populações, o acesso é semelhante à escola.  No entanto, a partir dos 15 anos, as diferenças ficam maiores.  Enquanto, entre os brancos, 70,7% dos adolescentes de 15 a 17 anos estão no ensino médio, etapa adequada à idade, entre os pretos esse índice cai para 55,5% e entre os pardos, 55,3%.

 

No terceiro ano do ensino médio, no final da educação básica, a diferença aumenta: 38% dos brancos; 21% dos pardos; e, 20,3% dos pretos têm o aprendizado adequado em português.  Em matemática, 15,1% dos brancos; 5,8% dos pardos e 4,3% dos pretos têm o aprendizado adequado.

 

Em entrevista à Agência Brasil, a presidente executiva do movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, diz que os indicadores são resultado de uma educação de baixa qualidade que não é capaz de fazer com que os estudantes superem as diferenças sociais.  Segundo ela, os estudantes mais vulneráveis têm também acesso a escolas com as piores infraestruturas e ensino.

 

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

 

Agência Brasil - O que esses dados nos mostram?  

 

Priscila Cruz - Não adianta só a gente ter o diagnóstico de que o país é desigual e que a oferta da educação é desigual, a gente precisa começar a pensar em estratégias para que isso seja resolvido pela política pública porque o que esse estudo mostra é que existe uma baixíssima mobilidade educacional.  A chance de um filho de pais analfabetos continuar analfabeto é muito grande e isso é mais forte na população negra.  Então, se a gente tem uma dívida histórica com a população negra, não basta só ter direitos iguais, não adianta a gente só dar direitos iguais a negros e pardos, a gente tem que ter políticas específicas na educação básica.

 

Agência Brasil - Quais seriam essas políticas?  

 

Priscila Cruz - A gente tem que dar as melhores escolas para a população negra e parda, porque ela só vai conseguir romper o ciclo de exclusão e pobreza que estão presas há gerações com política pública específica.  Não adianta ter diploma, é a qualidade que vai importar.  Para conseguir qualidade, o estado tem que dar muito mais para a população historicamente excluída.  Ainda tem um imaginário no Brasil muito forte de exclusão em relação aos negros.  A gente naturaliza que o negro vai estudar em uma escola pior do que o aluno branco de uma renda maior.  A gente precisa desnaturalizar isso.  Para os negros, a gente tem que ter escolas com os melhores professores, melhor formados, investimento maior, apoio técnico das secretarias e governos.  Essa é a lógica que a gente tem que instaurar no Brasil se a gente quiser reduzir desigualdade.

 

Agência Brasil - Seria investir mais naqueles que têm piores resultados.  O inverso de uma política por mérito?  

 

Priscila Cruz - Mérito é quando você está comparando dois pontos de partida iguais.  A gente está dizendo o seguinte, que têm alunos que, em uma corrida de 100 metros, partem dos 50 metros; têm alunos que partem do zero.  O dado de que um chega mais rapidamente no ponto de chegada que os outros não é porque tiveram as mesmas condições, é porque tiveram condições diferentes.  A gente só começa a levar em consideração o mérito na hora de premiar, de dar melhores condições, quando se parte do mesmo patamar.

 

Edição: Fábio Massalli 

 

18/11/2016 00h04